sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Ensinamento - vivência no candomblé

O Axé é a palavra que define quase tudo que é bom na nossa religião, ele serve como o “amém”, “eu aceito”, “que bom!”, ou seja, ele determina poder. E eu fico pensando, tanto invocamos algo que é proveniente de Olorun, dos ancestrais e da terra e o que fazemos com toda essa energia?
Sabemos que a natureza não responde bem a abusos, aprendemos isso em muitas lendas e vejo que o maior desafio de um iniciado (a idade de santo que for) é usar bem o seu axé, o seu poder pessoal, a sua capacidade de profetizar e invocar o seu Orixá. Todos os dias, vejo iniciados sofrendo na hora de conseguir equilibrar o Ori (cabeça), com a comunidade (Ègbé) em sua volta e tendo a força ancestral viva e que vai opinar sobre tudo.
Meu conselho é, busque o equilíbrio em cada decisão, o que for bom fale em voz alta e o que for ruim desabafe com poucos, com quem realmente vai te ajudar, seja com uma palavra ou direção. Outro ponto é que passamos muito tempo da vida nos privando de sermos felizes pelo medo e por lembranças do passado, sei o que o peso dos fatos negativos serão sempre maiores, pois costumam ter um impacto maior, mas quanta coisa deu certo? Quantas vitórias te formam hoje? Seja grato (a) pelo que você é hoje, isso já é um bom começo.
Todos os dias eu preciso enfrentar a mim mesmo para sentar em uma mesa de búzios e olhar pelo prisma do próximo, isso me desafia a melhorar sempre e hoje eu posso dizer que não existe ninguém completamente ruim ou bom, existem pessoas que são resultado de uma estrada com começo, meio e fim e já outras estão perdidas em uma história mal contada e que só precisa de um sentido, um enredo para ficar interessante e o meu papel é identificar as marcas espirituais e aconselhar, sem prejudicar o que é mais sagrado nesse mundo, o poder de escolha, o que você cultuou durante a sua estrada, ele determina seu axé.
Frase da semana: Suas escolhas determinam o seu axé pessoal!
Uma ótima semana!

Ensinamento - Despertar para o Orisá

Em toda fé existe o "despertar", que vem do latim "expertos", de esperto, “o que tudo percebe, atento, vigilante”. Para nós do candomblé isso ocorre no período e sete anos de iyáwò, mas para alguns pode acontecer até mesmo depois da obrigação de odún èje. Acredito que não exista uma receita, um momento certo, mas sim a sua dedicação em encontrar as respostas que darão sentido à sua vida religiosa e, consequentemente, à sua vida material. 

A maioria de nós entra no candomblé pela necessidade, mas só permanecemos se nos empenharmos, com sacrifício e amor, silenciando muitas vezes a sua voz interior para ouvir a determinação do orisá, isso se chama fé. E nessa estrada vamos colhendo lições importantes sobre princípios, respeito, valor ao silêncio, da servidão, da fraternidade e principalmente humildade. Tudo isso o candomblé tem de sobra a nos ensinar. Mas será que na atualidade estamos seguindo o caminho certo?

Como minha promessa é sempre aprender, descobrir e dividir, o que eu vejo hoje é a inversão de todos esses valores acima, como por exemplo:

- Iniciação (ìbèrè): Ao invés de um momento de recomeço, os iniciados estão em busca de facilidades, pular etapas, e são empurrados em uma fogueira de vaidades, que gera essa busca pelo status constante que estimula a concorrência: quem tem a roupa ou o igbá mais bonitos. A culpa disso é toda nossa (zeladores). 

- Respeito (ìbòlá): À todos, do mais velho ao mais novo, e não apenas a quem você tem "afinidade". Respeito não quer submissão ou medo e sim o entendimento que somos todos parte de um único corpo espiritual chamado Olorun (criador). 

- Silêncio (dáké): Ouvir é a forma mais eficaz de aprender, mas o grande problema é que os iniciantes estão sem paciência, acredito que isso acontece pelo excesso de informações que recebem pela internet e redes sociais e acabam ficando preguiçosos, querem tudo mastigado, e com isso deixam de vivenciar fases importantes.

- Servidão (oko-erú): Entender que estamos nesse mundo para servir, no sentido de contribuir e não de escravidão, como muitos dizem. Lembre-se que reverenciamos e cuidamos da fauna, da flora, dos minérios, e tudo que a natureza nos presenteou.

- Fraternidade (ìbásòré): Somos TODOS irmãos, independente de nação, de casa de asé, e até mesmo de religião. Ser fraterno apenas com quem você tem afinidades não é nenhum desafio, ou seja, não te ajuda a desenvolver a espiritualidade. 

- Humildade (irèlè): Em tudo que fizer, nos detalhes, no olhar, no sorriso, nas palavras e principalmente nas atitudes. A humildade não está na roupa que você veste, ou na casa que você mora e sim nas atitudes. 

É sempre muito válido relembrar os valores acima para não nos perdermos, pois as decepções, as mudanças de rumo e o mundo lá fora não tentam desvirtuar aqueles que carregam a chama da fé, assim é essa constante guerra espiritual em que vivemos e, como filhos de orisá, estamos no meio, entre o orún (céu) e o aiyè (terra), iniciados aos elementos que compõe a vida, temos a responsabilidade de zelar pelo asé que mora em nós, no outro e em tudo a nossa volta. 

Faça a sua parte, mas quando puder ajude o outro a fazer a parte dele também, afinal muitas vezes o orisá só terá as suas mãos e boa vontade para agir!

Atenciosamente,
Bàbá Diego de Odé

Explicação - Importância Ekedy

 
O candomblé é uma religião onde cada um exerce sua função, sendo assim  todos possuem sua devida importância. A tradução da palavra Ekedi, direciona o significado de camareira, mas aos meus olhos, deveriam ser vistas como nossas "diretoras de harmonia", pois são elas que lutam para manter a ordem enquanto todos dormem, as mesmas se mantém firmes e atentas cuidando de nós.

Afirmo com todas as palavras que para ser uma boa Ekedi não é preciso um adjá na mão, assim como não é preciso ser uma excelente dançaria ou até mesmo saber se equilibrar em um salto Luíz XV. Isso tudo é besteira, pois apenas uma palavra daquela que carrega o segredo é capaz de invocar nosso Orixá, é o cargo em que é os olhos na casa, são as mãos que apoiam e ajudam os yawòs, o ombro que apoia meu ory enquanto eu choro por mais uma decepção. As Ekedis me dão força e serenidade nas horas do desespero e da ansiedade. Por tudo isso é que eu acredito que merecem ser chamadas de mães e não pela roupa chamativa, pela empáfia e nem pelos "carões" que cada vez mais tomam conta e acabam com a real função dessas mulheres que assim como eu ou você, nasceram para servi.

Atenciosamente, 
Babá Diego de Odé 

#candomble #ketu #babadiego #babadiegodeode #itapevi #ekedi 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Questionamento - mudanças depois da iniciação


Esse foi o tema escolhido dessa semana sobre pessoas que fizeram a iniciação no candomblé e tiveram um pós iniciação parado ou pior do que já estavam. 

O primeiro ponto é que existe SIM uma promessa de abundância após “raspar o santo”, como chamamos, porém devemos entender que o rito de passagem é um desenvolvimento onde cada um terá sua experiência própria e o primeiro grande problema é a comparação com a vida do irmão ou de alguém que está no mesmo processo. Isso não se aplica apenas aos que fizeram orisá, há muita gente que mesmo com muitos anos de asé ainda se pergunta se foi a melhor ou pior decisão da vida. 

1 - Qual a vida que você levou para dentro do roncó?

Essa é uma pergunta importante, pois as suas experiências na infância, a família e a comunidade onde você foi criado (a) diz muito a respeito dos problemas e obstáculos dessa primeira fase na religião. A reforma do orisá começa de dentro para fora e isso pode doer um pouco. Não é a toa que tratamos o iyáwò como criança. 

2- Qual o seu comportamento no preceito pós rito iniciático?

Ser “feito” requer postura, compromisso e doação. Não adianta você achar que tudo serão flores, existe uma vida que vai passar por um processo de readaptação e nesses primeiros anos você passará por testes e provas de fogo e, como na vida real, na hora da prova o professor ficará em silêncio. 

3- Quais são seus sonhos e até onde está disposto a ir por eles?

A grande maioria das pessoas de sucesso tem ligação com o candomblé e graças a nossa luta muito do preconceito está sendo quebrado e hoje sabemos de irmãos da nossa fé na politica, na mídia, nos tribunais, entre outros, portanto ser de orisá não é ter a vida arruinada ou perdida, é ter a nossa essência fortalecida, mas para isso você terá que ter coragem e estar disposto a cumprir seu destino de direitos, mas também de deveres.

4- Sua fé te protege! 

Mesmo que você tenha nascido em uma casa que não estava preparada para iniciação em orisá, a sua fé e sua conduta irá te proteger, afinal orisá é uma inteligência superior e antes que pense que eu estou apenas responsabilizando o iyáwò, ao contrário, eu estou deixando claro que você é responsável por você mesmo e não vai conseguir controlar tudo o tempo todo, então minha forma de ajudar é orientar no que você pode fazer, mesmo quando passa por um lugar ou “mão” onde você foi mal orientado (a). 

Sempre há tempo de recomeçar a vida, e esses momentos de inércia, assim como o tempo de tempestade, acontecem por um único motivo: estimular sua capacidade de ser melhor, de crescer e encontrar o seu verdadeiro destino.

Faça orisá, mas antes disso converse com seu iniciador, abra seu coração, conte seus traumas e tristezas, um bom diálogo vai ajudá-lo na hora de preparar um ebó, um bori ou qualquer outro lado que ajude na cura que você está buscando.

Bàbá Diego de Odé 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Orientação - A hora certa de mudar de vida

Em segundo lugar, após questões amorosas, mudar de vida é uma das principais buscas de quem senta em uma mesa de jogo de búzios, e eu sempre levo a pessoa as seguintes reflexões: 

 

* O que te faz pensar que mudar de vida seja a solução?  

 

* Será que reorganizar a vida que você já tem não seria o caminho ideal? 

 

Sei que transformar é importante, a vida de tempos em tempos pede mudanças, porém ela não pode ser motivada por uma fuga, e pior, muitas vezes estamos fugindo de nós mesmos. Por isso é tão importante a espiritualidade, esse é um campo onde a sua essência (orisá), o potencial ancestral (odú, egun, iyá e etc) e missão individual (ori) são os grandes nortes na hora de decidir se é ou não a hora de mudar de vida.  

 

Deixo aqui um alerta, ao se comparar com o palco do alheio, você pode estar dando armas para o negativo te paralisar, então pare de usar o outro como parâmetro para seu sucesso. Quando admirar alguém que conseguiu realizar sonhos e projetos, espelhe-se, mas antes leia um pouco sobre a trajetória dessa pessoa e, com certeza, você vai encontrar muitos tombos, tentativas e persistência. Muita gente se decepciona com o candomblé por não entender isso, é aquela famosa frase, “fulano fez santo e foi para frente, e eu não”.  

 

Lembre-se: ter asé é estar alinhado com o poder do orisá, e principalmente fazer essa força entrar em sinergia com o seu meio, melhorando assim não só a sua vida como de todos que fizeram ou fazem parte da sua estrada.  

 

Seja asé! 

Bàbá Diego de Odé

domingo, 4 de outubro de 2020

Ensinamento - Despachar Esú e seus significados.

Um dos atos mais comuns a todas casas de candomblé é o que chamamos de “despachar Esú”, que tem como função comunicar-se com o mensageiro dos orisá’s garantindo assim boa sorte e equilíbrio. 

Não podemos confundir o ato com o ritual do Ipadè, que é um encontro de respeito e reverência a Esú e ancestrais, assim como a outras divindades. Falaremos sobre isso em outro post. 

No meu entendimento, sabiamente os ancestrais buscavam a harmonia entre o caos, que apesar de muitas vezes assustador, também cria caminhos novos, e a ordem que, estabelece a permanecia e reprodução dos ensinamentos, assim preservando o conhecimento, e o que já temos de valor espiritual e material em nossas vidas. 

A quartinha de barro representa o corpo da comunidade, e a troca de água é um ato limpeza energética para todos. 

A farinha de dendê é o que apazigua a fome do caminho.

A farinha de mel aquece e fortalece.

A farinha de água esfria os conflitos, a doença e a morte. 

São todos eles símbolos centenários de resistência e fé do nosso povo. Geralmente é usada a farinha de mandioca como base desse ritual, que é originária das Américas, mas que hoje já existe em outras partes do mundo, e foi mais um ponto de adaptação por parte dos nossos ancestrais.

Desejo a todos uma excelente semana, com a proteção de Esú, e para quem crer nele deixe aqui o seu “☝️”, e vamos interagir! 

#exu #esu #candomblé #fé #exúnãoéodiabo #egbelajo #babadiegodeode

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Relacionamento x Vida Espiritual


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Relacionamento x Vida Espiritual Sempre que falamos de amor é complicado, esse é um assunto que temos que analisar caso a caso não é mesmo? Mas existem situações que são comuns e é sobre elas que vou falar sobre.

Eu sou do candomblé e ele(a) não é

Vivemos em um país que tem uma diversidade cultural, étnica e religiosa muito grande, então isso não é difícil de acontecer. Porém tem que existir respeito mutuo, e você tem que saber que ele ou ela, tem que aceitar você como um todo e não apenas as partes que onde não há desafio. Sua fé é sua fé, ninguém vai substituir, e quando o outro começa já não esta aceitando isso nem aquilo, fuja, afinal não á barreiras para o amor.

Quais são os prós e os contras de namorar alguém que não é do candomblé?

Prós: Ele (a) terá a oportunidade de conhecer uma nova crença, de desmistificar essa história  de que o candomblé é coisa do diabo, pode até mesmo desenvolver simpatia pela casa de santo e um dia ser iniciado.

Contras: A pessoa pode não entender o período de resguardo. O ciúmes também pode ocorrer, e para que isso não haja, leve a mesma a conhecer o ambiente em que você convive e não tenha vergonha, afinal é sua religião.


Somos ambos da mesma casa de candomblé!

Existem algumas casas que não permitem namoro entre irmãos de santo, mas será que existe proibições para o amor? Será que podemos colocar cabresto até no coração? Não, não podemos, afinal esses são sentimentos que surgem. Por isso tenha uma postura digna, antes de qualquer coisa, sente como o seu zelador (a) e converse, peça conselho, e tenha um relacionamento saudável dentro da casa de santo.  

Como enfrentar juntos o tempo de resguardo?

Primeiro encare isso como uma prova de amor. Eu tenho alguns casos para citar, o do meu pai carnal por exemplo, ele não é do orixá, mas sempre respeitou a minha mãe e ele dizia : "Eu sei que é o melhor para ela, e também é um período muito pequeno, tendo em vista, a vida toda que estarei ao lado dela"...Pois é lindo. O amor é assim, então sente com seu parceiro e converse muito bem antes, afinal isso não vai durar a vida inteira. E crie alternativas, por exemplo: Façam as refeições em casal e conversem sobre o dia dos dois. Não vai ser a ausência da relação sexual que ira distanciar aqueles que querem uma relação sólida. Mas dê atenção a ele (a), não da maneira convencional, mas refletindo a mais pura forma de amor, que é a amizade.

Paixão pelo zelador (a)

Como estava falando acima, no coração ninguém manda, e por isso o tempo de abiyan é importante, ele vai de seis meses a um ano, e serve para isso mesmo, para ver a sua adaptação, se é ele ou ela, que vai ser o seu bàbálorisá mesmo, e caso algum sentimento surja, e como eu sempre digo: converse. Mas não se inicie com alguém que você mantém uma paixão ou amor, mesmo que for platónico, afinal você sofrerá todos os dias o fato de não poder tê-lo (a).  Me apoio na lenda (itan) diz que o primeiro filho de Yemonjá, manteve por ela um amor carnal e a mãe teria o repudiado. Portanto entendemos que o incesto não é bem visto na maioria das casas de candomblé. Sabemos o respeito pode ficar comprometido, pois você já não enxerga ele (a) como pai, como sua ligação com o orisá, e sim como homem ou mulher (HxH, MxM).

Somos da mesma casa e o relacionamento acabou. E agora?

Um dos dilemas mais difíceis da vida de alguém do candomblé, o  relacionamento acabou e somos da mesma casa, como enfrentar isso? Sendo adulto! Quando você se relacionou como seu irmão de asé já sabia que todo relacionamento, está sujeito a acabar, por isso não misture as coisas. Continue indo nos dias de obrigação e festividades, fazendo a sua parte. Não é incomum os relacionamentos acabarem em briga, e realmente fica dificil a convivência no terreiro. Mas toda raiva passa, você vai seguir sua vida e ele (a) também. As coisas aos poucos vão sendo colocadas no lugar. Portanto: O Orixá não tem nada a haver com isso! Eu acho que daí vem a questão de tantos zeladores, proibirem relacionamento dentro da casa de santo, no final é difícil existir respeito e disciplina.

Meu Zelador (a) se intromete na minha vida conjugal!

É, em pleno século 21 ainda acontece muito, como disse acima, o candomblé é uma religião familiar, então com o passar dos anos acabamos procurando nossos zeladores para se abrir em relação a assuntos do coração, mas isso não dá o direito a eles ditarem decisões, fazendo intriguinhas e fofocas, sobre aquilo que falamos em caráter de segredo. Como é chato falar algo com o zelador e todo mundo ficar sabendo, não é mesmo? E gente isso acontece, escuto tantos casos, por isso, deixe as coisas claras com seus zeladores:  “Pai estou confiando no senhor então não gostaria que isso saísse daqui, nem mesmo aos cargos”. E esteja aberto a ouvir, ele não quer seu mal.

Bàbá Diego de Odé
terradosorixas.blogspot.com.br
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Crescer ouvindo que o Candomblé não era para mim foi o meu primeiro terreno de provações. Familiares e amigos pintavam o preconceito na pare...