segunda-feira, 21 de março de 2016

Repensar: O Sacrifício

Eu sempre defendi os dogmas de nossa religião, acredito no Candomblé e não é porque o culto de Orisá sofreu diversas adaptações da África até os dias de hoje, que a memória e o poder das divindades se perderam, ao contrário, somos um povo de resistência que mesmo com todos os problemas sociais, lutou para preservar viva a memória de seus ancestrais, porém, estamos em um momento de repensar alguns pontos e o sacrifício de animais é um deles.
Assunto polêmico e que foi tantas vezes defendido e atacado, e o que deve ser discutido não é se pode ou não, mas a responsabilidade de um ato tão importante para nós. Diariamente atendo muitas pessoas iniciadas no Candomblé, independente da nação, noto em muitos casos, a banalização do processo de “orò”, como chamamos, teria nossos Orisás essa necessidade tão grande de “ejé” ou apenas seguimos um costume? Será que por falta de conhecimento, ainda associamos quantidade ou qualidade? Com a riqueza de materiais que hoje temos, não haveria uma forma de substituir energeticamente uma parte desse “ejé” que é derramado? São perguntas, que no meu ponto de vista, poderiam ser levadas em consideração na hora de uma iniciação ou obrigação.
Uma frase que sempre ouvi foi:
“No Candomblé nada se inventa, mas o Tempo caminha com a Sabedoria e certamente ele levará nosso culto a evoluir e se adaptar a cada geração, preservando o que é verdadeiro, sem esquecer nossas raízes.”
Respeito a opinião dos tradicionais, mas vale lembrar que até sessenta anos atrás, iniciar uma pessoa branca, um europeu ou oriental no Candomblé, seria motivo para chacota na comunidade do povo de santo. Há cem anos, o Orisá Iyèwá era conhecido, mas os antigos diziam não ser iniciada em ninguém, há pouco mais de cinquenta anos, relatos contam que Òbà se manifestava raramente em suas iniciadas. Hoje, tudo isso mudou, o nosso culto passou por um processo de “re-africanização” e somos uma religião forte, com todos os problemas sociais, pois herdamos uma religião de negros e moramos em um dos últimos países a abolir a escravatura.
Reforço que reconheço e acredito no valor que tem o “ejé”, assim como a vida que há em cada folha, cada grão ou qualquer outro ser vivo, mas estamos aqui para preservar e no que depender de mim, nada será retirado da Natureza, sem que haja realmente a necessidade, hoje alguns podem dizer que tocar nesse assunto é errado ou que o meu ponto de vista é “moderninho” demais, mas olho para o futuro, vejo a degradação do nosso planeta e a única coisa que eu posso fazer é tentar todos os dias, ser um morador melhor da Terra.
Orisá é natureza, é vivo em cada gota de água, em cada raio de sol e devemos cuidar de cada ser vivo, pois nele, mora um grão de areia de Olorun.

Muito Asé,
Babá Diego de Odé

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