terça-feira, 22 de março de 2016

O Ritual da Morte no Candomblé

             
 A iniciação no Candomblé, Ibèrè, é simbolicamente uma morte para vida material e o nascimento para a vida espiritual. O noviço ganha um novo nome e uma nova identidade, com o objetivo de reforçar seus laços com o céu (orún) e é seus passos a partir desse momento que irão construir um novo futuro.

  A morte é vista pelos candomblecistas como uma passagem, porém os ritos fúnebres são complexos e exigem do sacerdote (babálorisá) grande preparo, pois são invocados forças primordiais. São elas: Esú (Orisá mensageiro), Iku (Orisá da Morte), Obatalá (Orisá da Vida), Oiá (Orisá que guia os Mortos) e Egungun (Orisá da Ancestralidade). Após o falecimento do omo-Orisá (filho de santo), são preparadas as comidas específicas deste momento (ebós), além da terra, que vai receber o corpo (ara).

Para isso, contamos com pessoas que possuem diferentes cargos em uma casa de santo. No caso da organização do rito fúnebre, precisamos do trabalho e asè do babálorisá (ou iyálorisá), iyálasé (ou babálasé), Ojé, Iyámoro, Iyádagan, Iyájibudá. É importante ressaltar que estes cargos são dados pelo orisá para que estas pessoas possam exercer funções de liderança, a fim de auxiliar o pai ou mãe da casa. Desta forma, elas respondem ao babálorisá, porém possuem posições de sacerdócio dentro da comunidade. Outro dado importante, é que em muitos casos os cargos podem ser recebidos por homens (Babás) e mulheres (Iyas), mas existem exceções nas quais as funções só podem ser realizadas pela energia feminina ou masculina.
            
Após o enterro, seguiremos mais sete dias nos quais a comunidade se reúne para entoar cantigas e rezas pela alma do irmão que retornou para a terra dos ancestrais, o Orún. Existe a obrigatoriedade do uso do branco, pois significa a eternidade e igualdade, símbolos fortes e fundamentais do Candomblé. A cor preta não possui um significado negativo, apenas representa a terra; desta maneira, se o objetivo de todos os atos religiosos é a alma se voltar para o orún, pois na terra seu papel já foi cumprido e agora começa um novo ciclo, os iniciados na religião devem evitar o uso desta e de outra cor em suas vestimentas.

A morte em nossa religião, como já dito, possui um caráter cíclico. Desta maneira, ela pode também ser considerada um renascimento, pois Ikú e Obatalá estão presentes em ambos os momentos. Conceito que reforça ainda mais o uso do branco, pois é o renascimento do Omo Orisá para o orún e todo nascimento é celebrado com a cor de Oxalá. Retornar para a terra dos ancestrais, para os candomblecistas, não significa aguardar o momento de voltar para uma vida na terra (aye), pois não cultuamos o conceito de vidas pregressas.
          
  O Povo de Santo, como é popularmente chamado os adeptos da religião, acredita que viemos de uma “lama primordial”, que é resultado dos que nasceram e morrem antes de nós. Por este motivo, cada um tem a missão de resgatar dificuldades (como por exemplo os defeitos pessoais) e evoluir aquilo que trazemos de bom desta lama (qualidades), para quando retornarmos e de nossa “lama” forem criados novos seres humanos, eles sejam melhores, mais evoluídos e com menor quantidade de resgates. Desta maneira, a principal responsabilidade de uma pessoa iniciada para o Orisá é a de devolver à terra uma lama que possa formar melhores indivíduos.


Babá Diego de Odé




[1] Texto escrito por Diego Guimarães, estudioso de religiões Africanas e babalorisá do Egbe L’ajó, casa de candomblé da nação Ketu, com sua sede fundada na cidade de Itapevi – SP no ano de 1964, pela Iyalorisá Minervina de Ogun.

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Entrevista para TV Alto Astral